Etnogênese

Etnogêneses em curso

Recentemente temos observado um movimento de ressurgência de comunidades indígenas, tanto em territórios tradicionais quanto em regiões urbanas. Chamamos estes processos etnogênese. Este conceito significa um processo de constituição de identidades étnicas, mediante a retomada de identidades étnicas existentes. A etnogênese ocorre quando famílias ou comunidades passam a se autoidentificar e a serem reconhecidas como um grupo étnico distinto, como uma afirmação e resistência a processos de dominação histórica, social ou cultural.

Ela surge quando grupos recuperam sua ancestralidade, reconhecendo-se como descendentes e herdeiros de povos originais. Ela ocorre quando grupos que tinham sua identidade indígena negada ou enfraquecida buscam reafirmá-la, quando reconfiguram sua identidade atual incorporando elementos tradicionais de seu passado, mobilizando-se estratégica e politicamente para garantir seus direitos, sua terra e seu reconhecimento perante o Estado.

Encontram-se em curso processos de retomada cultural e identitária de povos indígenas no Espírito Santo. Os Censos de 2010 e 2022 apontam a afirmação de etnias indígenas em áreas rurais e urbanas, com uma população expressiva que pode ser ainda muito maior. Eis os movimentos mais conhecidos:

Os Borum de Guaibura (Guarapari): exemplo de etnogênese viva; famílias redescobrindo a língua Itchok, conectando memórias e reconstruindo sua história e identidade;

Os Pataxó da comunidade Paulo Jacó em Itaúnas, que acompanham a revitalização linguística do Patxohã, e atravessam um movimento de etnogênese;

Os Guerém em Baixo Guandu, ainda pouco conhecidos, mas que aparecem em novas pesquisas, mostrando como a memória e a história oral podem “trazer de volta” etnias pouco mencionadas.

Os Botocudo na Comunidade Areal em Linhares buscando reconectar-se com sua história e sua identidade ancestral.

Mas algumas etnias foram extintas?

Algumas etnias indígenas no Espírito Santo foram oficialmente consideradas extintas. Sabemos hoje que essa “extinção”, foi mais administrativa e política do que real e que corresponde a tentativas de apagamento da identidade indígena, posto que descendentes seguramente existem. De todo modo,

Puri e Coroado: Tidos como desaparecidos, possuem descendentes que vivem em comunidades rurais do sul capixaba e em áreas de fronteira com Rio de Janeiro e Minas Gerais, na Grande Vitória e em muitos municípios capixabas. A língua se perdeu, mas sobrenomes, práticas culturais e memórias persistem.

Temiminó: A historiografia os têm como desaparecidos na condição de grupo após os séculos XVI e XVII, mas presentes em toponímias (Nova Almeida, aldeia de Maracajaguaçu) e em descendentes misturados a populações locais, em especial, na região de Aracruz, Anchieta e Marataízes.

Goitacá: Teriam sido extintos também por volta do século XVII. Sendo eles notadamente lembrados como “ferozes” em crônicas e cartas. Apesar disso, a ausência de vocabulário não significa desaparecimento total, posto que sobrevivem na memória regional, em topônimos e práticas pesqueiras no sul capixaba.

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