Línguas

Línguas indígenas

O Espírito Santo é um território onde várias línguas convivem. Além do português, ainda se ouvem idiomas de dois grandes troncos linguísticos. O Guarani e o Itchok seguem vivos, outras línguas permanecem em nomes de rios, cidades, plantas e animais. O Puri e o Tupinikim vêm sendo retomados com esforço e orgulho. Já o Goitacá e o Temiminó se perderam, levando consigo memórias e modos de existir.

Tronco Tupi-Guarani

O tronco Tupi-guarani é característico do litoral brasileiro, inclusive sua presença extensiva ao longo da costa facilitou o reconhecimento e tradução de sua língua pelo colonizador. As etnias que fazem parte dele são:

Tupinikim: aldeados em Aracruz e em Reriritiba; conhecidos por sua ligação com os jesuítas e por sua luta e conquista de território.

Guarani: migraram no século XX em busca da “terra sem males” e vivem em aldeias de Aracruz.

Temiminó: instalaram-se, sobretudo, nos territórios de Anchieta, Marataízes e em Nova Almeida.

Características linguísticas

O tronco Tupi-guarani é característico do litoral brasileiro, inclusive sua presença extensiva ao longo da costa facilitou o reconhecimento e tradução de sua língua pelo colonizador. As etnias que fazem parte dele são:

Línguas aglutinantes (palavras longas formadas por várias partículas).
Estrutura silábica que pode incluir apenas uma vogal.
Sistema de classificação nominal que atribui uma classe a substantivos.
Uso de prefixos para marcar tempo, pessoa e plural.
Presença de nasalização em vogais que pode influenciar a pronúncia de até três sílabas anteriores.
O número geralmente é marcado no verbo, não no sujeito.

Tronco Macro-Jê

O tronco Macro-Jê é muito antigo e espalhado pelo interior do Brasil. No Espírito Santo, ocupava sobretudo áreas de serras e vales do Rio Doce e do Caparaó. As etnias que fazem parte dele são:

Botocudo (Aimoré) – no vale do Rio Doce mas também na porção central; conhecidos pelo uso de botoques.

Borum – em Guaibura (Guarapari) e no norte do estado na região de São Mateus.

Krenak – no vale do Rio Doce em direção à Minas Gerais, nas terras capixabas sobretudo na região de Linhares.

Guerém – migraram do sul da Bahia para o norte do Espírito Santo.

Maxakali – presença no nordeste capixaba, hoje com territórios reconhecidos em Minas e Bahia.

Pataxó – presentes no extremo norte, em São Mateus e Conceição da Barra.

Características linguísticas

O tronco Tupi-guarani é característico do litoral brasileiro, inclusive sua presença extensiva ao longo da costa facilitou o reconhecimento e tradução de sua língua pelo colonizador. As etnias que fazem parte dele são:

Línguas com fonética distinta, com sons nasais marcantes.
Verbos causativos são formados por recursos morfológicos (afixos) e sintáticos, que derivam verbos transitivos a partir de verbos intransitivos e nomes. 
Presença de um número limitado de consoantes e uma grande quantidade de vogais. 
Nasalização das vogais, contrastando com as não-nasalizadas, alterando o significado das palavras. 
Uso de posposições em vez de preposições.
Algumas línguas (como o Itchok dos Borum e Krenak ou o Patxohã dos Pataxó) sobreviveram em parte graças a registros lexicográficos e esforços de revitalização.
Problemáticas

Alguns autores defendem uma autonomia ou descolamento de duas línguas, anteriormente vinculadas ao grupo macro-jê:

Puri: espalhados pelo centro-sul do estado na fronteira com Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Coroado: aparentados aos Puri, fronteira sul com o Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Comparação lexical entre povos indígenas capixabas

As línguas indígenas presentes no Espírito Santo revelam dois grandes conjuntos lexicais: o das línguas Tupi-Guarani — representadas historicamente por Tupiniquim e Guarani — e o das línguas Macro-Jê, faladas por grupos como Itchok/Borum, Puri, Coroado, Maxakali, Krenak e Patxohã. A comparação de palavras fundamentais do cotidiano mostra diferenças marcantes entre essas tradições linguísticas. Entre os povos Tupi-Guarani, “fogo” é expresso por tata no tupi e tatá no guarani; “água” aparece como y em ambas as línguas; o “sol” é chamado coraci em tupi e kwaray em guarani; “criança” pode ser curumin no tupi e kunumi no guarani; “homem” corresponde a abá no tupi e kuimba’e no guarani; “mulher” aparece como cunhã no tupi e kuña no guarani; e “onça” recebe nomes como yaguareté ou jaguara.

Entre os povos Macro-Jê, o vocabulário é mais diversificado. “Fogo” pode ser cok entre os Itchok, coay entre os Puri ou warã entre os Patxohã. Para “água”, surgem formas como moaná (Puri), nãm (Coroado) e kuxex (Maxakali). O “sol” é denominado caycá entre os Puri e Mĩkyaq entre os Maxakali. A noção de “criança” aparece como hãmhã em Maxakali e tuné entre os Itchok. Para “homem”, encontram-se termos como borum (Itchok), puré (Puri) e tihik (Maxakali). A palavra “mulher” varia entre Ūhex (Maxakali), Mbaima (Puri) e kunhã entre os Krenak — esta última forma também presente nas línguas Tupi, sugerindo circulação e contato linguístico. Já a “onça” recebe denominações como cupa entre os Krenak e paraiá entre os Maxakali.

Esse conjunto lexical evidencia não apenas a diversidade indígena no Espírito Santo, mas também as profundas distinções culturais entre povos de troncos linguísticos diferentes, ao mesmo tempo em que revela zonas de contato, trocas históricas e permanências que atravessam séculos de convivência, conflito e circulação entre grupos de origens variadas.

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